quinta-feira, 31 de março de 2011

Ele chegou antes do previsto. Ela se alegrou, afinal, depois de dias, lá estava ele, são e salvo. Mas este era o prato que ficava mais alto na balança. Outra parte sua sentia um leve desconforto, porque ali estavam acabando suas férias. Férias dele, das obrigações, de pisar em ovos, de medir palavras, de fazer vista grossa, de engolir sapos, de ser acusada injustamente.
Durante aqueles lindos dias de solidão, ela pode ser ela, pode ser o que quisesse, pensar, sentir e querer o que lhe conviesse dentro daquela casa. Havia liberdade, tranqüilidade, paz. Naquele período, aquelas paredes delimitam o paraíso para ela, e de certa forma aquilo se acabou na hora em que aquele homem, carregando aquela mala, chegou ali.
Sentia-se mal por sentir-se mal. Não devia ser comum as esposas serem mais felizes distantes de seus maridos, mas ela havia sido. Logo mais ela descobriria que ele também ficou melhor sem ela, mas enquanto não soube disso uma angústia a corroia, como se fosse uma culpa por tudo o que sonhou que podia ser na ausência dele. Por outro lado, aquilo lhe dava mais certeza. Cada vez tinha mais certeza de que sua vida estava com defeito e que precisava consertar. Mas lhe faltava coragem.
Durante um dia inteiro, brincaram de casinha, fizeram o que marido e esposa fazem, bem old school. Ele espalhou as coisas de sua mala pelo sofá, ela fez de conta que não viu para não se irritar, ela ofereceu café, ele não ouviu mas depois reclamou de fome, eles saíram pra se exercitar, eles namoraram como fazem os casais.
Mas lá estava ela, de novo pisando em ovos, de novo engolindo sapos, tudo aquilo de novo. A angústia agora crescia, revestindo-se de medo. Ela ia precisar de coragem para começar uma nova revolução em sua vida, e as lembranças dos transtornos que a penúltima revolução lhe causou eram a fonte desse medo. Se só dependesse dela, seria fácil, como tinha sido a última, seria só bater a porta, nunca mais voltar e tentar não olhar para trás como fizera. Mas não seria assim tão fácil, pois há outra vida envolvida, e ela não desejaria passar pelas acusações, perseguições, nem visitar hospitais novamente. Desejaria menos ainda outras pessoas se intrometendo, mas isso é outra história, que ela contará em outro momento.
Dessa vez precisaria fazer tudo no tempo e da forma certa, para amenizar os transtornos. Quando seria esse tempo e qual seria essa forma, ela não sabe dizer. Pode ser que esteja apenas postergando, pois pode ser que seu medo também tenha outras fontes. Como a indecisão. Como o próprio medo, aquele velho medo de ter medo, medo de se arrepender. Aí vive uma contradição. Ela própria é uma contradição, vestida de indecisão.
Falemos da revolução mais tarde, quando ela tomar fôlego o suficiente para voltar a pensar.
Ela tem um novo blog, tem novos problemas, está tentando organizar os pensamentos, tentando começar tudo de novo. Ela vai desabafar, escrever o passado e o presente para tentar definir o que fazer do seu futuro.
Ela precisa de um novo rumo.